
Alô, alô Terezinha, se você não viu o Chacrinha ao vivo, eu te explico. Um dos maiores ícones da TV tinha uma frase célebre: “Na televisão, nada se cria, tudo se copia”. Na verdade, não só na TV. Não acredito que exista mesmo alguma peça de comunicação, especialmente a publicitária, que seja realmente original. Nosso objetivo, enquanto criadores, é despertar emoções junto ao consumidor em relação a um produto. Sentimentos são os mesmos dentro do ser humano desde sempre. O que muda é a forma de despertar e expressar os sentimentos, os recursos, os meios, mas a essência vai ser sempre a mesma. Parece um tanto filosófico, mas vou tentar me explicar melhor. Sabe aqueles comentários da imprensa, ‘os novos Beatles’, ‘o novo Pelé’, que vemos a cada semana? Quem quer que seja que receba esse rótulo não será nunca igual aos Beatles ou ao Pelé, mas o sentimento que nos despertam é o mesmo de lá de trás. Nós iremos sempre nos reportar a um passado para dizer o que sentimos. Nesse sentido, a propaganda vai usar sempre um recurso anterior, já conhecido, para encurtar o caminho até o coração do consumidor e, por isso, não será verdadeiramente original.
Sabe aquela frase da vovó ‘eles não têm mais o que inventar’? Pois então, eu acredito nela. Faço parte de uma corrente que fala que não criamos algo novo. O que muda é a forma. Apenas encontramos maneiras diferentes de dizer a mesma coisa que já é dita ao longo da História. Uma idéia verdadeiramente original é difícil. Qualquer obra artística, ou da propaganda (que se utiliza de recursos da arte), não será necessariamente nova, mas a maneira de transmitir a mesma mensagem é que se renova. Quando Matrix estreou lá em 1999 foi um choque. Mudou a década dos 2000 que viria na sequência. A partir dali, o futuro não era mais como o futuro que a gente pensava que seria antigamente, mas se repararmos bem, o filme em si é uma colagem imensa de pensamentos, histórias e inúmeras referências com mais de séculos, dentro de uma roupagem que até ali era nova e que foi copiada à exaustão.

Vamos para a prática. O Dia dos Namorados está a menos de uma semana de distância. A ocasião já é a quarta data mais importante do varejo, perdendo apenas para o Natal, Dia das Mães e Dia das Crianças. Em dados de 2009, os presentes mais demandados para a data foram celulares (25%), Roupas/Cintos/Sapatos/Tênis/Acessórios (24%), Flores (18%) e Perfumes/Cosméticos (13%). Até aqui, algum presente realmente inovador? Claro que não. Porque no fundo, os presentes são os mesmos de zilhões de anos atrás e não mudam porque os sentimentos não mudam. Aí você vai me dizer “e o celular?” ele é apenas um meio de comunicação entre os namorados, como eram as próprias cartas de amor.

No livro de Oliviero Toscani, “A publicidade é um cadáver que nos sorri”, ele afirma (entre suas tantas afirmações polêmicas) que Jesus teria sido o primeiro publicitário. Seu logo, a cruz. Seu conceito de campanha, a paz entre as pessoas. Seu slogan, ‘ame o próximo como a ti mesmo’. Entre tantos outros paralelos que o autor faz. Agora pense bem, você acha que nos dias de hoje, um homem que saísse às ruas de túnica e barba, por mais verdadeira que fosse a sua mensagem, seria ouvido ou seria taxado de louco? Não é à toa que o pobre ‘Inri Cristo’ é ridicularizado em cadeia nacional. Posso estar viajando na maionese, eu sei, por isso, sua forma, sua abordagem, o ‘como’, as palavras precisariam ser renovadas, ainda que seus temas sejam universais e perenes.
Não é novidade para ninguém que ser retro é moda. É uma onda em vigor há algum tempo e que não dá sinais de que irá acabar, mas de se transformar, como algo cíclico. Em breve o cinema trará o remake de ‘Três Solteirões e um bebê’. ‘A Família Addams’ também terá seu remake pelas mãos de Tim Burton. Nem mesmo o Homem Aranha, o primeiro filme foi feito apenas em 2002, ficará imune da onda do remake, em inglês, refazer. Se você olhar as vitrines dos shoppings, irá perceber que na nova estação predomina a boa e velha camisa xadrez de flanela. Chegou a hora de reviver o grunge, o remake da moda. Não sei se este é o objetivo, mas pessoalmente, o que me parece é que sempre o mercado foca em trazer à tona o passado, a infância ou o começo da adolescência principalmente, de quem passa a ter o poder aquisitivo e estar dentro de uma população economicamente ativa. É pura estatística. Não lembro onde li que os produtos são criados para preencherem carências (emocionais, principalmente). O segredo é saber colocar o dedo na ferida. É saber ter uma ideia que ‘aperte os botões certos’ para se chegar à emoção pretendida. Pra variar, sempre ele, Washington Olivetto afirma: “Só a grande ideia é capaz de produzir “excelence in advertising”. A grande ideia (”puta ideia”, para os íntimos) é a origem e a razão dessa profissão. Foi assim na idade do “lay” lascado, é assim nestes tempos de iPads ambicionados e será assim no futuro, que a nós pertence.” Portanto, nada melhor do que lançar mão de uma ideia que traga novamente os sentimentos e a lembrança de um tempo bom que não volta mais.



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Josué Brazil
É bom ver o CCVP de volta a ativa!!!Michelli
cadê?André Leone
Gostaria muito de um desafio. Como não atuo ainda 24hs do meu dia trabalhando, acaba sobrando um tempinho para freelances. Grato pela atençãomarushio
A Globo pelo jeito gostou da ação criada pela Molotov. http://globoesporte.globo.com/lutas/noticia/2012/01/ring-girls-brasileiras-chamam-atencao-eMarcosTeles
Caros, Gostei muito do logo. simples e direto


junho 8th, 2010 as 8:01 am
Grande Gustavo!
No início da leitura pensei:- “Pô, justo o Gustavo parafraseando o Chacrinha, afirmando que nada se cria, tudo se copia? Justo o cara que eu considero uma das pessoas mais criativas e invoadoras que eu conheço?”
Pois bem, conhecendo o “figura” só fiquei mais instigado a ler o artigo com muita atenção. E consegui entender perfeitamente a mensagem. Uma fotografia extremamente realista dos agentes motivadores do processo de criação e da relação desse processo com o famoso “publico-alvo”.
Meu amigo, muito bom o artigo!
Abs,
Ricardo Rojas.
junho 8th, 2010 as 1:33 pm
Do que se faz o novo senão da releitura e do entrelaçamento dos já velhos?
Esse seu texto tem um pouco a ver com o último livro do Carrascoza: Do Caos à Criação Publicitária.
junho 8th, 2010 as 6:27 pm
Pois é, o imperdível Falcão copiou o Chacrinha … Os episódios posteriores de Matrix se basearam nas mesmas sacadas … “O dono da idéia” pode ser copiado mas nunca igualado (acho que essa também é uma frase de propaganda). E por falar em Matrix. veja como o Dr. Raymond Langston de CSI (o ator Laurence Fishburne, Morfeu de Matrix) não coloca os óculos tão sexy como Horacio Caine, de CSI Miami. Até o comercial da Folha de São Paulo está parecido com as idéias inovadoras de OVale (me corrija se estiver errada). Acho que tudo no início parte de uma cópia, uma idéia que vaga no espaço e que depois toma uma nova forma, exceto é claro, o plágio. Evolução da espécie, Gustavo.
junho 8th, 2010 as 8:09 pm
Parabéns mais uma vez pelo texto muito bacana!
POr tudo isso que tu expressa na sua coluna deste dia, que tenho medo da palavra “inovação” que geralmente é usada em todos os briefings de um jeito ou de outro.
Criar algo realmente novo, é dificilimo.