CCVP, Clube de criação do Vale do Paraíba

Postado por Gustavo, às 6:00, em Criativo Crônico.

_guerreiroO talentoso amigo Marushio conta por meio de suas tatuagens que, de acordo com a cultura oriental, um verdadeiro guerreiro só se faz com honra e coragem. Ser um publicitário prevê que você seja realmente um guerreiro. “A publicidade não é feita para homens preguiçosos” já dizia Claude Hopkins em “A Ciência da Propaganda” escrito em 1966, há exatos 43 anos. É por isso que eu digo que se um job fosse fácil, não davam para você resolver. Pode ser meio cruel, mas é bem por aí. Ao pensar que a cada dia vivemos uma nova batalha, um exemplo lá do tempo das Cruzadas poderia se encaixar bem a esse tema.

_saladinoO Sultão Saladino, Ṣalāḥ ad-Dīn, o Rei dos Saracenos, estava longe de se tornar uma figura odiada na Europa. Ainda que fosse um adversário pela Terra Santa, Ele se tornou um exemplo célebre dos princípios da cavalaria medieval ao ser responsável pela retomada de Jerusalém. O filme ‘Cruzada’ conta tão bem a história de seu caráter e sua integridade que chegamos a torcer por ele. O que o filme não conta é o que aconteceu a partir dali. Saladino, como Rei de Jersusalém, teve ataques de outras expedições Cruzadas que saíram da Europa para reconquistar a cidade. Além de_cruzada nenhuma ter tido sucesso, seus líderes todos saíram em retirada com reverência ao sultão adversário.  Este respeito mútuo chegou a tal ponto que ao enfrentar o Rei da Inglaterra e líder da Terceira Cruzada, Ricardo Coração de Leão, Saladino ofereceu os serviços de seu médico pessoal quando Ricardo foi ferido. “Em Apollonia, quando Ricardo perdeu seu cavalo, Saladino enviou-lhe dois substitutos. Ricardo sugeriu que sua irmã poderia casar-se com o irmão de Saladino - e Jerusalém poderia ser seu presente de casamento. Os dois chegaram a um acordo sobre Jerusalém no Tratado de Ramla em 1192, pelo qual a cidade permaneceria em mãos muçulmanas, mas estaria aberta às peregrinações cristãs”. Apesar de serem adversários, um Muçulmano e um Cristão, um querendo defender e o outro retomar a cidade, e terem todos os motivos para destruírem um ao outro, a postura deles ia além da rivalidade militar.

FF-21R

Se na coluna de semana passada, falei que devemos cooperar pelo nosso próprio bem e pelo bem de todos ao mesmo tempo, não vejo espaço para disputas ou enfrentamentos entre agência e cliente ou ainda a perda de tempo entre a disputa entre atendimentoXcriação, tão velha quanto a nossa própria profissão. Não dá para imaginar que as diferenças não possam permanecer de lado e essas pessoas se enxerguem como ‘versus’ e não como ‘mais’, ou seja,  atendimento+criação em torno do objetivo de fazerem juntos um bom trabalho. Se duas cabeças pensam melhor do que uma, por que deveriam disputar e não se unirem? Falemos a verdade, ser nenhum dos dois é fácil. Ser atendimento é contornar saias justas e lidar com detalhes e pormenores impensáveis para se viabilizar qualquer ação. São coisas nas quais nós, criativos, odiamos ter que pensar. Ser criativo é ter que encontrar saídas diferentes, caprichar em todos os sentidos para que aquilo que se procura vender chegue às pessoas da maneira mais interessante que pudermos fazer, sempre com o mínimo de recursos. Mas um depende do outro, sempre, por isso não consigo ver como ainda existe espaço para atritos. O segredo de uma boa agência está no equilíbrio dessas duas áreas. Não há sentido também de uma diretoria privilegiar, ou ouvir, uma área em detrimento da outra. Ambos têm visões diferentes do negócio.
Por mais que os ambientes das agências procurem ser descontraídos e descolados, a pressão é inerente ao trabalho, talvez comparável a uma guerra. Acho que palavras como target, material de combate, guerrilha, estratégia e tática dizem bem como os próprios fundamentos da área se basearam nos conceitos militares. Se esta é uma arena, de verdade, sem lugar para um ‘operário padrão’ que bate cartão, mas para gladiadores que enfrentam os leões de frente, não vejo saída senão desenvolvermos, desde muito cedo, nossa maturidade na postura profissional e o poder de agirmos com tato e diplomacia no intuito de somar esforços. A experiência conta que é preciso saber ouvir, mais do que saber falar. De que é preciso saber baixar as armas e agir com respeito entre colegas e concorrentes. De que é preciso saber o momento de ajudar o ‘adversário’ quando é preciso. E, por que não, de aplaudir e celebrar as realizações do outro, pois elas são a conquista de todo um mercado.

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10 comentários sobre “Criativo Crônico - A teoria de Saladino”

  1. Josué Brazil escreveu:

    Gustavo

    Primeiro: adorei “Cruzada” e já o assisti duas vezes.
    Segundo: já vi muita gente em sala de aula, palestra, curso e seminário reforçando o estereótipo de richa entre departamentos, principalmente o chavão “criaçãoXatendimento. Nada mais antigo!!! Nada tão desnecessário e inútil para o cenário atual. Mas tem gente que ainda acha bonito contar histórinhas assim.
    Quando se pede comunicação cada vez mais integrada, como realizá-la sem integração das funções/áreas/deptos. de uma agência. A cultura do “eu fiz minha parte agora os outros que se virem” é muito presente em nossas empresa, instituições, governos e associações. Infelizmente! Respeitar, colaborar e participar. Os esportes coletivos ensinam muito disso. Ontem estava assistindo futebol americano de madrugada. Há jogadores (e são muitos nesse esporte) que passam temporadas sem pegar na bola. Sem fazer pontos. Sem brilhar. Mas fazem tão bem sua porte em prol do todo que são fortemente reconhecidos dentro da cultura esportiva americana. Acho que é isso que temos que aprender. Aqui, no nosso futebol (esporte maior do mpaís), só valorizamos mesmo o artilheiro. O cara que as vezes nem treina, corre pouco, participa pouco, mas vira ídolo. Vai entender!!!

  2. Marushio escreveu:

    POw, que surpresa a citação Gobatto! Arigatou gozaimashita!

    Sobre o tema. Não podia ser mais coerente.

    A meta é a mesma pra toda a equipe, remar contra a maré é bobagem. A era da criação sem foco já foi e a do atendimento controlador tb. tanto que hoje temos muito mais áreas de atuação com destaque maior que no passado (como planejamento e mídia).

    Aprovar, veicular, faturar e fazer tudo isso com qualidade e ética é a meta, na minha opinião =)

  3. Yara escreveu:

    Ninguém melhor do que você, Ricardo, digo, Gustavo, para saber como é importante a boa relação entre os diversos setores de uma agência. E como é fundamental o relacionamento do “boss” com o seu pessoal. A experiência é que torna você “o cara”. E usar a história das Cruzadas para ilustrar sua idéia foi sensacional!

  4. Thiago Riboura escreveu:

    Gustavo, como sei que você escreve muito bem, passa pela sua cabeça pelo menos a imagem de um livro de cronicas deste tipo. Seria uma boa hein…

    abraços.

  5. Jair escreveu:

    Ah a eterna briga criação x atendimento.
    Já trabalhei com atendimento que não sabia nem falar corretamente, escrevia briefings cheio de erros, apesar de já ter trabalhado com redatores (?) que não sabiam português também, o que é bem pior.
    O que posso dizer é o seguinte. Criação: se o atendimento não comprou sua idéia, báu, báu. O cliente não vai comprar. Então o negócio é ser amigo dos caras, sair pra tomar umas brejas de vez em qdo. Mostre um rascunho pro atendimento antes de sair fazendo o layout. Publicitários são todos meio artistas, sensíveis, eu sou e vc que tá lendo também é, então (pelo menos) saber ouvir sugestões do atendimento e incorporá-las na sua idéia ajuda e muito a vender a campanha ou peça. Afinal, tipografia, fotografia, psicodinâmica das cores, conceito, redação publicitária… ainda tá pra nascer um atendimento que saiba td isso. Assim como a criação conhece muito pouco sobre abordagem ao cliente, negociação - eu ia odiar negar desconto pra cliente - e td que envolve o maravilhoso mundo dos atendimentos. Agora, aquele atendimento que não sabia nem falar corretamente não durou muito não… ainda bem. Eu ia preferir sair da agência a virar amigo dele.

  6. mauricio jorge escreveu:

    A grande pergunta que não cala por aqui é:
    Se publicitários são guerreiros/gladiadores/samurais e empresas/empresários, reis e sultões ou coisa assim, sobra para o consumidor o papel de plebe? E assim como a plebe, estaria o consumidor destinado a toda a ignorância que desabou sobre o povo da idade média? Talvez neste novo mundo em que vivemos não haja mais espaço para guerreiros, e os reis estejam, enfim, mais atentos aos suditos do que às guerras. Por fim, prefero ser o bobo da corte para, como na idade média, falar ao rei o que se deve, sem perder a cabeça.

    PS. Profissionais de atendimento. Briguem e não engulam egocentrismos e devaneios criativos, vocês cursaram a mesma escola, talvez só não sejam tão bons assim com o photoshop.

    Abraço a todos.

  7. Gustavo Gobbato escreveu:

    Oi Galera, fico feliz mais uma vez com o feedback de todos. Sim, Thiago, me passa pela cabeça, mas ainda não tenho muito clara a idéia para ele.
    Josué, Maru e Jair, um gde abraço. História é o que a gente mais tem pra contar.
    Yara, comentário de mãe não vale, né? Bjo pra vc.

  8. Gustavo Gobbato escreveu:

    Olá Maurício,
    a comparação se deveu ao fato de tratarmos uns aos outros com igualdade em um tema ligado ao dia a dia interno de uma agência, para que se tivesse uma idéia que mesmo inimigos poderiam ter respeito uns pelos outros. Pelo visto não foi compreendida por você dessa maneira. Acredito que você mesmo já tenha ouvido a frase “O consumidor é o Rei” tão difundida no nosso meio e que aprendi lá no primeiro ano de faculdade. Quando o foco da conversa, e várias vezes já falei dele aqui, é o consumidor tenha a certeza de que é tratado com a realeza, pompa e circunstância que lhe é devida, afinal, é o consumidor que faz com que nossa profissão exista. Procure acompanhar a coluna para que você tenha idéia da linha de raciocínio dela.

  9. Lucaz Mathias escreveu:

    Adoro o Gobatto e adorei o Mauricio Jorge. Esses dias uam colega de classe disse ‘toda a unanimidade é burra’, achei o máximo. No caso em questão, a coluna do Gobatto, leio todas não perco uma, mas estava faltando um alma contraditória, que tivesse outras percepções não só a do Gobatto e de sua referências. Acredito que existam verdades nas duas analogias e também conceitos falos e batidos em ambas. Só comento pra dizer q a discussão é sempre saudável, adoro ler opiniões conflitantes.
    Bora pra frente e que venha a próxima ‘criativo crônico’ e mais opiniões ‘blasfêmicas’ como a do Mauricio. Assim passaremos a fundar novas teorias e não apenas repetí-las.

    Abs
    Lucaz

  10. Mauricio Jorge escreveu:

    É isso aí Lucaz,
    Esse espaço realmente precisa de novas idéias. Desculpa se alguém ficou mordido, realmente não dá pra concordar com tudo. Desculpa também se o entendimento do texto em questão depende da leitura de todos os outros textos. Acreditei por um momento que fosse um texto com início, meio e fim. Mas não tem problema, vou acompanhar de perto daqui pra frente. E quando rolar um outro ponto de vista, lá estarei eu pra atormentar um tanto. Abraço a todos.


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