“Nossa Luiz, você está tão distante”, ela me disse isso olhando nos meus olhos.
Minha esposa me disse isso e depois ficamos um tempo em silêncio. Foi um golpe fatal. Não havia como me desculpar ou argumentar. Ela havia acabado de me acertar com mais uma verdade pontiaguda. Mudamos de assunto, fechamos a conta do bar e fomos para casa. Mas aquilo não me saiu da cabeça, realmente o conceito que eu havia criado para a campanha estava muito distante. Muitos que vissem a propaganda, não entenderiam. Eu entendia porque estava vivendo aquilo 24 horas por dia. Eu respirava o briefing dia e noite. Eu havia me esquecido que o significado das palavras não estão exatamente trancados dentro delas. Meu título poderia soar bem para mim, mas mal para outros, e provavelmente não seria entendido por muitos. Esqueci que o significado vive dentro da cabeça de cada leitor, de acordo com a sua cultura. Ele é como um vírus, que contagia as pessoas, mas só é capaz de sobreviver dentro delas. Não existe significado solto no ar, não por muito tempo. Talvez, como um fã incondicional de literatura, eu estive um pouco longe da vida real, longe do cotidiano imediatista, longe da minha época. Era preciso retornar, pousar novamente na Terra, mais precisamente no Brasil, no interior do estado de São Paulo, no ano de 2007. Realmente, para falar com o consumidor daqui, não era possível ir muito longe. Eu acabava de cair na real e descobrir mais um óbvio ululante: quando se quer falar com alguém, falar na mesma língua ajuda muito.
Em casa, no momento vago, curtindo meu ócio, resolvi assistir tevê. Vi um comercial que mostrava um espantalho dirigindo um carro em vastos campos, percorrendo um bom pedaço de estrada. Até que, finalmente, ele chega à beira mar. Lá ele abre os braços como de costume e curte o vento no rosto. Isso me chamou muito a atenção. O que será que esse espantalho quer? Será que ele roubou o carro do fazendeiro? Entrando no carro novamente o espantalho volta pela estrada, até o meio de uma plantação. Lá, esperando por ele está um jovem cabeludo e de roupas modernas em seu lugar. O jovem está de braços abertos, fazendo o trabalho do espantalho, que desce do carro e volta para o seu lugar. Mas antes disso, ele entrega as chaves do carro e agradece o cabeludo, e os dois se abraçam como velhos amigos, ao fundo uma música de emocionar, daquelas forte. No final, aparece a assinatura do comercial com a marca do carro e a frase: “Grande por dentro”. Puta que pariu, genial. Nunca pensei em me emocionar com a vida de um espantalho. Jamais. Esse era um comercial argentino, estava passando num programa sobre o Festival de Cannes. Putz, Argentina, nossos hermanos, aqui do lado. Além do meu queixo caído num misto de inveja e admiração, é lógico que eu entendi que o comercial falava sobre o espaço interno do carro. Pô, quem não entenderia?… Talvez o brasileiro. Não sei. O consumidor pode até entender, mas o que eu sei é que o anunciante não entende. Esse eu sei que não entende, pelo menos, mais precisamente no interior do estado de São Paulo, no ano de 2007.
- Luiz Henrique Nascimento